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Aristeu Pires

10.04.2018

Detalhista, disciplinado e observador! Estas certamente foram características fundamentais para fazer do quase engenheiro elétrico e Analista de Sistemas de formação, Aristeu Pires, um designer autodidata respeitado Brasil afora. Aos 63 anos de idade, ele possui disputados showrooms nos Estados Unidos e em Canela, na Serra gaúcha, onde também está a sua fábrica. Reconhecido pelo traço simples e leveza de seu design contemporâneo, Aristeu transita por cabideiros, camas, poltronas, bancos e mesas... Mas são as cadeiras, sempre nomeadas em homenagem às mulheres, que recebem atenção especial! E fica fácil evidenciar isso ao entrar em seu showroom... Grandes, pequenas, para a área interna ou externa, impossível não notar a belíssima Gisele, que ganhou o nome da top das tops por um motivo claro: "Eu sempre dou o nome após a conclusão da peça. A Gisele tem um estilo de cadeira europeia, mas tem uma brasilidade! Então pensei: quem é a mulher que tem todo o biotipo europeu, mas ao mesmo tempo é inconfundivelmente brasileira?”.


O Começo

Em uma rápida conversa com Aristeu de Oliveira Pires Junior é fácil perceber que ele é multifacetado, transcorre facilmente por diversas áreas e vai fundo em tudo o que faz. Nascido em Campo Formoso, no interior da Bahia, ele já morou em mais de dez cidades brasileiras diferentes e em alguns países; fez dois anos do curso de Engenharia Elétrica; é músico (toca violão e possui várias composições); serviu ao exército por três anos e, ao sair, resolveu fazer novo vestibular, desta vez para processamento de dados na UnB, em Brasília. E foi graças a esta área que ele conheceu o Rio Grande do Sul, quando, em 1987, veio fazer mestrado em Ciência da computação na Ufrgs, em Porto Alegre. “Na hora de escrever a dissertação e construir um protótipo, por sugestão de um amigo, apostei na tranquilidade de Gramado”, diz ele, que na época não sabia que esta ligação não acabaria com o fim do mestrado.


Serra Gaúcha

Apesar de muito bem estabelecido na área de tecnologia – com mais de 25 anos de desenvolvimento de sistemas para os setores público e privado –, chegou um momento em que Aristeu decidiu que queria mudar o seu estilo de vida. Foi então que lembrou da antiga cidade dos tempos do mestrado. "Gramado me deixou com um gostinho de qualidade de vida. Aí, quando estava em uma fase louca de viagens, resolvi ganhar menos, mas ter esta qualidade", comenta ele, que primeiro pensou em abrir algo relacionado à informática na Serra, mas um amigo o alertou que ainda não era o momento. Foi então que resolveu apostar em algo improvável até então: o design.


O Design

Nem os amigos mais próximos podiam imaginar que Aristeu se tornaria um respeitado designer, pois a história se iniciou quase por acaso: insatisfeito com os móveis de um apartamento que havia alugado no Rio de Janeiro, começou a procurar em Gramado e Canela algo com “a sua cara”. “Queria algo mais clean... Em uma das lojas, o vendedor, que era dono da fábrica, disse para eu desenhar o que eu queria! Fiz isso e acabamos tendo uma parceria: eu desenhava e ele fabricava para vender", conta, lembrando que a cama Oceano foi seu primeiro móvel autoral.

Na decisão de vir para Gramado e com a ideia de um negócio de informática enterrado, uma namorada da época sugeriu que ele apostasse nos móveis. Do susto inicial veio o começo de uma trajetória de sucesso internacional. “Comecei a pesquisar, estudar assuntos e aluguei um espaço para abrir uma loja com meus móveis em Gramado”, conta ele, que, na verdade, já tinha tido o olhar apurado para o design evidenciado muitos anos antes... Em 1979, Aristeu comprou duas poltronas Kilin de Sergio Rodrigues (arquiteto e um dos maiores nomes do design brasileiro que se tornou seu amigo) sem saber da assinatura de peso. “Fiquei sabendo anos mais tarde que eram de design”, relembra.


O Sucesso

Após pedir demissão da empresa onde atuava na área de computação e em 2002 vir para Gramado, Aristeu “fez as contas” e chegou à conclusão que tinha uma reserva para viver um ano e meio. “Se em um ano não tivesse dado certo, eu provavelmente voltaria ao mercado da computação”, lembra o designer. Após alguns percalços iniciais, ganhou força entre os lojistas que iam à Gramado em função de uma forte feira de móveis que havia na época e resolveu abrir uma marcenaria com o apoio incondicional dos amigos Nailor Benetti e João Wilmar (ainda hoje seu prototipista). Era o que faltava para ele fincar de vez o pé no setor moveleiro.


A Tempestade

A inicial e pequena marcenaria logo não deu conta da produção e, em 2004, Aristeu foi para um novo endereço, também em Canela, mas desta vez três vezes maior. Bem nos negócios e expandindo cada vez mais, em 2007 ele recebeu uma importante premiação com a cadeira Gisele: o 1º lugar na categoria Mobiliário no Prêmio Design MCB. Daí em diante foi um pulo para aumentar a presença de suas peças em importantes espaços Brasil afora. Tudo ia de vento em popa até que, em 2010, um tornado passou por Canela e derrubou a fábrica de Aristeu. Como ele mesmo afirma, o que poderia ter acabado com sua carreira foi, na verdade, um divisor de águas. “Esta tempestade serviu de gás! Se não tivesse o vendaval, não estaríamos onde estávamos hoje", diz ele, que meses depois havia construído uma fábrica de 4 mil metros quadrados no Distrito Industrial de Canela, auxiliando com alta tecnologia os seu processos que, em sua maioria, são manuais. “Produzimos cerca de 2 mil peças ao mês, feitas de forma muito artesanal. O trabalho das CNC (usinagem) representa 5% do trabalho total. 95% é feito artesanalmente.”


As Cadeiras

"A necessidade eh a mãe da rotatividade", diz o músico Aristeu, que teve como sua primeira peça de design autoral um violão para viagem. "Eu queria tocar de noite no hotel, mas tinha que ser pratico", conta o homem que, entre diversas criações, tem predileção pelas cadeiras. “As cadeiras proporcionam um espaço maior de criação, ao mesmo tempo em que apresentam mais complexidade porque exigem ergonomia, resistência, funcionalidade, sem dispensar a beleza”, fala o designer, que dá a todas nome de mulheres... Certamente influenciado pelo fato de a vida toda ter sido rodeado por elas: Aristeu tinha cinco irmãs e possui seis filhas. “É o design mais requintado, aconchegante, ergonômico e bem acabado. Também o mais complexo, como as mulheres”, justifica.


Futuro

“A madeira é a matéria-prima mais antiga e natural, que exige o mínimo de processamento, visando apenas a forma. Só a madeira bruta em si já tem uma beleza, um calor único da natureza também presente em algumas fibras, lã, algodão, couro, etc. Exatamente o oposto de metais, plásticos e resinas”, frisa o designer que costuma criar com o material, mas já está planejando novidades. “Há algum tempo começamos a trabalhar com corian, mas ainda estamos em um estágio inicial.”

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